
Conheci, faz tempo, um homem. Olhar desconfiado. Sorriso timido. Maos fortes e sensiveis. Questionador, sonhador. Um tanto revoltado. Entre tantos outros adjetivos, um homem bom. Um coraçao escondido. Uma vontade firme. Este homem, nao poderia ser outro senao um contador de historias. Um tradutor de sonhos. Um aventureiro de estrelas. Um desbravador de vontades. E sendo um contador, era também um sabio. Mesmo se às vezes se sentisse diminuido e miseravel. O que nao era verdade. Claro que ele escondia tudo isso, muitas vezes, atras de um orgulho descarado. Vestia sua mascara de homem mau. Preferia ser o bandido do que o bonzinho da historia. Queria que as pessoas acreditassem em sua furia e mistério. Desejava ardentemente usar suas habeis maos e seu cérebro veloz para escrever contos. Queria muito por pra fora toda a sua historia. Bem escondida em tantas metaforas.
Mas um dia esse contador caiu nas graças, ou poderia dizer, nas garras, de uma certa moça. E ela era tudo o que ele nunca idealizou numa mulher. Talvez ela fosse mesmo o oposto de seus desejos de homem.
Onde o destino poderia armar uma peça dessas pra ele? Colocar no seu caminho uma mulher assim : racional, louca, insana, intensa, instavel e outros ins- por ai a fora. E nao é que a tal conseguiu mesmo causar estrago!
Ai o contador de historias perdeu o rumo. Mergulhou no fundo do poço, afundou, afundou. Perdeu o chao dos seus pés. Amaldiçoou a nao poder mais todas as mulheres do mundo (excluindo sua mae, é claro) mas especialmente aquela que apareceu pra torturar seu coraçao de contador. Sem rumo, sem luz, sem saida. O homem caiu na vida. Ou melhor, nos braços da talzinha aquela. Bebeu e fumou todas as palavras que ela dizia, incluindo ai algumas outras. E recheou seu coraçao de magoas e angustias. Ficou doido. Queria muito a tal mulher mas ao mesmo tempo temia por sua propria sanidade mental. Pela primeira vez teve medo e faltou força pra arriscar. Logo ele, um homem tao destemido, agora lutava com um sentimento tao forte. E toda sua força nao foi suficiente pra escapar da magia desta feiticeira. Mulher ma. Rainha das suas insonias e noites brancas. Aqueles olhos azuis-gato nao poderiam ter arrumado melhor escravo. Ter causado maior estrago. Perda total.
E o contador se afogou num pranto. Fugiu dela. Jogou sua vida pra dentro dos livros. Gastou tintas e tintas, grafite, canetas, lapis e papel. Muito papel. Mesmo assim, jamais pode escrever uma linha sequer que tratasse dela. Maldiçao na sua carne. E ele foi embora. Nem quis recolher o que restou dela. Transformou sua propria dor em produçao. Virou uma maquina de escrever historias.
Ele continuou sonhando, sim. Trabalhando muito, sim. Estudando, sim.
E de tempos em tempos, ainda sofre a obsessao da bruxa. Ela tenta invadir os seus sonhos, as suas historias, os seus emails. Mas como um rochedo, inabalavel, o contador segue. Sem jamais olhar pra tras.
E se um dia a vida fizer outra ironia dessas com ele, quem sabe ele respire fundo, tome coragem e nos conte toda essa historia.
Quanto a fada ma, esta continua. E a pobre ainda acredita que o contador de historias voltara pros seus sonhos.
A criatura ainda acredita no amor do seu criador.