Wednesday, October 26, 2005

Cronica dos Dias Roubados



8:30

Ele tranca a porta de casa e sai com seu carro. Um dia ordinario de trabalho. Os colegas de escritorio com as mesmas piadas sem-graça. A secretaria gorda com o mesmo sorriso simpatico. O café forte e sem açucar de todos os dias. A lata de balas velhas, com papel desbotado em cima da mesa. O ritual diario de sentar-se em frente ao computador e digitar os mesmos numeros 0 a 10. 1 a 1000. Ordens alteradas. Mesmas chifras. Resultados que se parecem. Os oculos na ponta do nariz. A testa enrugada. A ponta da caneta mordida. Os clips e elasticos espalhados por cima da mesa. O porta-retrato sorrindo a esposa e as crianças, antes mesmo de entrarem no 2° grau.

E como todas as manhas, todos os dias que se parecem, toda aquela vida repetitiva, ele abre a 3° gaveta da sua mesa de trabalho. Esperando como sempre por se ocupar daquela pilha de papéis e de documentos. Tudo que foi deixado pra hoje e provavelmente ainda sera prolongado pra amanha e pra depois. E a gaveta é aberta. Os olhos que mal se abrem, ainda com as horas de sono atrasadas. Maldito filme da madrugada. Milésima reprise. Esses mesmos olhos que o acompanharam todos os dias quase nao acreditam no que veem no interior da gaveta. Ou melhor, no que nao veem. Um grito forte, muito forte, acorda todo o escritorio e atira a atençao sobre a 3° gaveta da sua mesa.

- Meu Deus, fui roubado!

Os gritos aumentam, os colegas se aproximam. Ja nao ha + piadas. A secretaria nao sorri. O café ja esfriou.

- Fui roubado! Nao pode ser verdade! Quem poderia ter feito isso comigo?

Os colegas se entreolham, as desculpas e comentarios aumentam. Ninguém sabe, ninguém viu. Talvez o vigia noturno tenha dormido e alguém entrou na sala, abriu a gaveta e…

- O que farei agora ? Onde estara o culpado ? Provavelmente bem longe daqui.

E no meio de tanta confusao, questionamentos, suspeitas, acusaçoes. As maos na cabeça. O suor frio na testa. Os olhos embaçados. Nervosismo geral. Mas o + importante, + do que encontar o culpado, descobrir quem teria feito uma coisa daquelas, tomar as devidas providencias, + do que tudo isso, uma pergunta que nao foi feita :

- O que foi roubado ? Tem seguro ? Era de valor inestimavel ? Tem como substituir por outro ? Tem fotocopia ? Quem sabe uma copia no computador ? Sera que voce nao se enganou e deixou em casa? A moça da faxina esteve aqui ontem. Quem sabe ela nao encontrou caido em algum lugar e guardou em outra gaveta ?

O panico começou a tomar conta do ambiente. Ninguém + trabalhava. Até o porteiro ja havia subido e se metido no meio da conversa.

Palpites, idéias, soluçoes. Quem poderia ter feito uma coisa dessas?

Os cabelos em desordem. Os olhos umidos. As maos que se esfregam. As pernas que tremem. Taquicardia. Tumulto geral. Ninguém escuta + ninguém. Entao um novo grito. + dolorido que o anterior. Uma explosao de choro. Um choro convulsivo. Os ombros sacodem. A cabeça cai entre as maos.

- Meu Deus, fui roubado ! O que faço agora ?

O office-boy que tinha acabado de chegar. Sabe como é. Onibus lotado, dai fura o pneu. Todo mundo desce. Espera o socorro que nao vem. + gente esperando o onibus. O proximo onibus que nao passa. Abre passagem entre a multidao que se formou. Uma verdadeira selva de mata fechada. A curiosidade era tanta que o receio ficou de lado. Aproximando-se da pobre vitima, pergunta :

- O senhor foi roubado ? Mas diga-me o que foi levado ?

Entao enxugando as lagrimas e levantando os olhos, o homem disse ao office-boy:

- Filho, por favor, antes que eu parta daqui, do meu ultimo dia de trabalho, quero pedir-lhe um favor. Ouça-me com atençao. Fui roubado e nao quero que aconteça o mesmo com voce.

- Ah ! Nao se preocupa comigo. – Um sorriso nos labios. – Nao tenho nada de valor pra ser roubado, nao.

- Pois eu quando tinha a sua idade também pensei assim. Acreditei que se trabalhasse duro toda a minha vida pra chegar onde estou hoje, ai sim poderia ter alguma coisa. Mas acabo de descobrir meu maior engano. O maior de todos. Fui roubado. E nada nem ninguém podera trazer de volta o que eu perdi. E’ tarde demais. Quantas noites mal dormias. Quantos convites recusados. Quantos «naos», «daqui a pouco», «+ tarde», «outro dia».

Voce filho, ainda pode fazer alguma coisa. Eu nao posso +. Por favor, ouça esse + novo aposentado. + um no clube. Nao deixe que te roubem o que hoje eu descobri que me foi roubado: os meus dias !

Os meus dias. Quantos deles foram que eu nao vivi ? Quanto deixei passar esperando pelo amanha, e pelo depois, e depois. E depois.

Hoje olho pra tras e vejo tudo que deixei de viver e fazer. Fui roubado. E o unico culpado de tudo isso foi o meu proprio medo de tentar mudar.

Saturday, October 22, 2005

A Pilula Azul



Faz um tempinho, bem pouco, somente 2 dias atras.
Ingeri minha primeira pilula azul.
Sonhando com dias melhores, um copo d'agua verde escuro, e muita saliva.
Foi assim que a pilula azul fez parte de mim.
E agora, como se o mundo mudasse de cor, espero que algo aconteça
e que La Vie en Rose chegue logo.
Afinal, se acreditamos com toda força que algo realmente vai acontecer...por que nao aconteceria?
E a pilula segue seu curso.
Nao estaciona no meio da garganta.
Leva dentro da capsula a esperança de que tudo vai se resolver.
E se dentro de 1 mes nada acontecer, paciencia.
Um novo frasco com novas cores pra eu digerir...

Sunday, October 16, 2005

La nièce de Pollock



A SOBRINHA DE POLOCK
(La nièce de Pollock)


Boulevard de MontParnasse. Fim de tarde de agosto.
Caminhando tranquilamente pela calçada, vendo os carros passarem, os cafés. Uma janela envidraçada. Cortinas claras. Um gatinho do lado de dentro so acompanhando com os olhos o movimento da rua. Parece um bichinho de pelucia, solitario em uma grande vitrine. Nao resito e me aproximo. Nos olhamos um tao curioso quanto o outro. Chamo sua atençao. Ele apenas me olha. O que essa ai quer de mim? Deve pensar. Vejo um papelzinho colado no vidro da janela, bem na frente do gato. Sera que ele tem preço?

“Je m’appelle Pollock”. Letras vermelhas me apresentam um novo amigo. Nao resisto e tiro de dentro da minha bolsa a camera enrolada na velha meia azul marinho. Uma foto, duas. Uma senhora que passa, para. Olha. Seu caozinho King Charles também. E ela me diz : « Este ai nao é o Pollck. E ‘ a sobrinha dele ! O Pollock é bem + gordo ! ».

Sem problemas. Um sorriso e guardo minha camera. Feliz por levar comigo as fotos da sobrinha de Pollock!

Monday, October 10, 2005

Fui

Entre risos, lagrimas, comedia, drama e suspense, la se foram 5 semanas.
O tempo voa, todos sabemos.
Mas a duvida sempre fica.
Ai esta a chave do misterio.
Quando eu voltar, quero estar ainda + forte e ter a certeza de que este periodo me valeu experiencias incriveis.
Cresci assim e nao nego que de inicio me assustei.
Ta bom, juro que nao reclamo +.
Afinal, sou ou nao sou uma privilegiada?
Resolvi acreditar no que me dizem.

Bon voyage!

Tuesday, October 04, 2005

A Pinta Azul

Me questiono, entupindo meu cerebro de questoes.
Umas sem importancia, outras nem tanto.
Escrevo meu testamento no teto de madeira do quarto.
A cabeça doi, tudo gira.
Levei um soco de luva de box.
Minha cabeça em caledoscopio. Sera mesmo uma pinta azul? Entao questiono ainda meu inconsciente e tento buscar a resposta dentro dos meus anos de luta.
Luta pela vida? Luta pela sobrevivencia de ume espirito que poderiaria ter se perdido num caminho de tantas pedras.
Sabedoria ou nao, destas pedras fiz meu castelo.
Ninguém derruba +.

Sera mesmo uma pinta azul?