
Ontem realmente foi o dia.
E que dia!
O que a gente nao faz por amor....
Um dia lindo, frio e ensolarado, em pleno inverno parisiense, ja que a primavera insiste em nao chegar.
Minha touca azul de tricot e florzinha na cabeça, meus oculos Made in VietNam na cara, casacao e botas.
9h35 da manha e eu ja na rua.
Feirinha na Rue St Charles todas as terças.
Tudo bem que a feirinha é simpatica.
Tudo bem que todas as vovis vestidas em seus casacos de pele, e de carrinho em punho, tem a mesma idéia de frequentar a feira no mesmo horario que eu.
Mas juro que cada vez que preciso passar por la, em frente a banca de peixes, é um sufoco.
Bom, o veterinario mandou comprar sardinha pra meninas.
Nao 2 sardinhas.
2 Kilos de sardinha!!!
Ai é que entra o drama do meu dia ensolarado.
Eu nunca comprei peixe fresco na vida.
E confesso que sou fresca quando o assunto foge das minhas convicçoes de vegetariana.
Entao la estou eu, com uma cara de sono, na fila da banca do peixe.
Sim, porque a banca do peixe tem fila!
Ainda + agora que as amigas penosas estao em baixa no mercado.
Sorte de uns, azar de outros.
A vaca-louca, a gripe das aves....
E bem atras de mim, na fila, uma dessas peruas de terça de manha, com seu casaco de pele basico, até o joelho.
E diga-se de passagem, os casacos de pele que frequentam a feira da rue St Charles sao, em grande maioria, verdadeiros.
E eu olhando pro lado oposto pra nao ver os pobres peixes mortos e algumas vieiras que ainda se mexiam, como fazendo um S.O.S pra que eu pudesse salva-las.
Mas salvar como?
Comprando-as e soltando-as aonde? No Sena?
Nao, isso é sadismo puro.
E eu masoquista e mae-gata me dou o trabalho e a coragem de enfrentar a banca do peixe!
Entao um pescador, ou peixeiro, ou sei la como se chama, me atende com um sorriso de metade de dentes dentro da boca.
Dentes podres, e ai lembro que o veterinario mandou cuidar também dos dentes da Gatha.
Ai, Deus! Que pesadelo essa terça!
Foi simpatico comigo, o peixeiro, o que ja ajuda a diminuir um pouco meu sentimento de culpa.
Pobres sardinhas!
- Quero 2 kilos!
E o peixeiro me sorri e eu peço explicaçoes:
- Como servir isso pras gatas?
- Facil! Meu gato come inteira! So deixa a cabeça e o rabo!
Meu alivio em saber que nao vou precisar limpar sardinhas!
Pego a sacola azul, com os bichinhos dentro, aqueles olhos parados de peixe-morto:
das sardinhas e os meus também!
E volto pra casa.
Onde 2 gatas sorridentes e sem nenhuma culpa, me esperam de olhos brilhantes e apetite felino.
Ainda preciso tocar nas sardinhas.
Deus, meu!
E ainda terei de fazer isso todos os dias dessa minha vida.
Eu mereço.
O amor fala + alto.
Eu faço isso por voces.
Coragem! Auto-coragem, me imponho.
E depois de servida as meninas, tento esquecer os meus atos.
Ligo a TV e encontro imagens de um peixinho dourado num aquario.
Mudo de canal e dou de cara com um prato de peixe.
Desligo a TV, decido ler.
Abro a revista e dou de cara com a receita:
De sardinhas!!!!
Sardinhas obsessoras, so me faltava essa.
E se nao bastasse ainda tenho um jantar hoje a noite.
Onde?
Um amigo propoe o restaurante...
de frutos do mar!!!!!
Ninguém ouse rir porque nao é piada.
E ainda por cima as paredes do restaurante sao cobertas de conchinhas.
Iguais aquelas que vi de manha na feira.
Igual aquela vieira me pedindo socorro.
Volto pra casa arrasada e dentro do metro sou obrigada a ver outra cena surreal.
Um homem-mendigo, que vem com aquele papo de desemprego e pede dinheiro.
O que seria uma situaçao corriqueira, ja que muitos deles passam pedindo com seus caes-pedintes do lado, me surpreende.
Nos braços, com ohar triste e desolado, sua cachorrinha:
gorda, bem alimentada, de coleira de madame com direito a plaquinha prateada de coraçaozinho com nome escrito.
Uma cadelinha da raça PUG, acreditem ou nao.
Eu quase nao acreditei!
Se nao bastassem as peruas na feira, ainda tenho que ver isso!
Sera que o cao era dele ou ele pegou emprestado?
Em Paris, tudo pode ser o que nao é...
Ah! As sardinhas?
O que sobrou delas nos pratinhos das gatas?
As cabeças!
Cada um perdendo a sua...