
Faz meses que pergunto pra toda colonia vietnamita de Paris se alguém sabe de um cabelereiro asiatico ( e se possivel made in VietNam) que more por aqui.
A esposa do meu médico, Ue, diz que corta numa francesa, bem baratinho, ali mesmo perto do consultorio.
A Lan, que de volta a Saigon, nunca me indicou nenhum tao bom quanto o dela, que por acaso foi quem cortou o meu, pela ultima vez, no passado mes de junho.
O Tony, tenho la minhas duvidas onde possa cortar o que ainda resta de cabelo, visto que é praticamente careca.
A Vy, uma francesa ja assumida, deve frequenter provalemtnte aquelas franquias de saloes que dao desconto pra estudante.
Bem, entao perco quase um ano, e varios cabelos, tentando achar um cabelereiro que possa resolver minha vida.
Parece frescura?
Vou explicar porque nao é.
Eu era daquelas que frequentva o salao de testes da L'Oreal.
Profissionais (franceses) cortavam meu cabelo de graça, e ainda faziam escova.
Em troca da mordomia, eu emprestava minhas madeixas para estudo de shampoos e cremes e essas coisas todas que a mulherada vive usando na cabeça.
O caso é que eles faziam um estudo de cabelo das brasileiras.
Um grande mercado pra eles é o Brasil.
Sera que é porque lavamos + seguido o cabelo e tomamos banho todos os dias?...
Bem, isso é particular d+ pra se falar.
Nao vou queimar ninguém so porque carrega baguete embaixo do braço e nao lava a mao antes de comer.
Voltando aos testes da L'Oreal, quero explicar que eles pararam de me chamar pelo simples fato de eu nao ter um cabelo tipico de brasileira:
meu cabelo é castanho e liso.
Na visao francesa, uma tipica brasileira deve, no minimo, ser mulata e ter cabelo crespo.
Varias vezes eles tentaram me convencer a fazer um teste com um novo produto pra alisar cabelos.
E isso que o meu é tao liso que as vezes escapa da presilha!
Coisinhas daqui, meu povo.
Decidi que nao corto cabelo em salao frances.
Nao tenho 35 euros pra gastar so pra cortar as pontinhas quebradas.
Como esse ano a coisa apertou eu fui obrigada a abrir meu cofrinho e retirar dele 30 euros.
Com a grande vantagem: encontrei uma cabelereira vietnamita!
Como? Onde?
O bom e velho anuario, agora on line, simplificando a vida da gente.
Entao ligo pro 1° nome vietnamita que encontro na lista.
Uma voz simpatica atende do outro lado
e estranha a minha pergunta:
-Voce é asiatica?
A resposta:
-Sou e voce? (dei uma brecha pra que ela me perguntasse a mesma coisa).
A pior pergunta que te fazem aqui, quando voce é estrangeiro é essa.
A pergunta em si nao é tao grave, o que se conta é a entonaçao.
Voltando ao contato telefonico.
A moça é simpatica e marco hora pra sexta.
No caso, hoje.
E atravesso a cidade inteira, em pleno bairro asiatico, pra encontrar a minha futura cabelereira asiatica.
A rua é longa e de longe consigo identificar o salao.
Coisas surreais de Paris, uma senhora com o avental do salao, o cabelo cheio de tintura espalhada de todos os lados e o celular na mao.
Onde?
Em plena calçada!
Com esta indicaçao, achei facinho o caminho.
E quando entro pro meu Rdv das 14h, dou de cara com VARIAS outras senhoras, com muita tinta no cabelo, esperando a vez pra tirar excessos e fazer escova.
Droga! Hoje é sexta e as vovis se embelezam pro findi!
Com todo direito, diga-se de passagem.
Espero uma meia hora até receber atençao e ter meu cabelo lavado.
A menina que é responsavel pela lavagem se chama Lucy.
Foi com ela que marquei hora pelo telefone.
Lucy sorri e me pergunta: - é voce a brasileira?
Sim, sou eu.
-Pensei que voce tivesse o cabelo crespo!
(no comments!)
A moça que vai cortar é outra.
Uma asiatica, vietnamita, loira, com mechas.
Espero a minha vez e vejo uma vovi toda faceira saindo de la com os cabelos tingidos.
Ela fez luzes e na mesma hora lembrei da malvada dos 101 dalmatas:
o cabelo dela parecia o casaco de pele de dalmatas do filme.
Reflexos que pareciam as pintinhas dos cachorrinhos.
Lucy me da uma revista chinesa e diz pra eu escolher o corte.
Chinesinhas com cabelo castanho.
Bom, so me falta os olhinhos puxados!
Escolhi o cabelo que + parece com o que foi o meu no Vietnam.
O Salao lotado e na salinha do fundo vejo embalagens de hamburgers e milks do McDonalds.
A Loirinha me diz:
- Hoje é dia cheio. Nem almoçamos ainda.
A tesoura e a navalha me picotam as pontas.
Vejo uma pilha de cabelos amontoados no canto do armario onde estao nossos casacos.
Menos de 10 minutois e ja estou pronta.
Voltei a ser gente!
So me falta agora recomeçar a comer com os palitinhos!