Friday, April 28, 2006

Poema de metro



Quem de mim tira o desejo de ama-lo?
Tenta, porém nada consegue.
Fere a ferida
Embora abalo
Rastro de sangue
Nao me calo.

Guardo as sombras da noite
Escuridao continua
Mingua o corpo
Soltando as virgulas
Deixando a sina
Vida sem rumo
Deitando a noite na tua cama fria.

Beijo-te o peito
Rastro de sangue
Doce pecado
Veneno ingrato
Rasgo tuas rendas
Perco as sementes
Desejo insano
Nao me calo.

Vago é teu nome
Pecado incerto
Rogo promessas
Nao me peças
Por verdades nao ditas
Palavras malditas
Saudades
Vontades
Abandono

Tua estrela
Meu luar
Partindo o peito
Deixando o leito
Derreto teu nome
Silabas soltas
Solto os cabelos
Calos nos pés
Sangue que corre
Dor de perder
Achar-te

Outra vez
Querer-te
Consumi-lo
Sonhos nao bastam
Fico a vontade
Pra segui-lo
Nao parto hoje
Mas amanha
Deixo-te a pensar
Sentir
Estou ainda a amar-te

+ e +
E sempre o fogo
A queimar-me
O pranto
Olhos de dor
Ama-lo ao acaso
Teria sido diferente
Sim, teria
Ter-me deixado
Seria pecado
Morte certa
Certeza de tudo
De deixa-lo assim
Longe do corpo
Proximo ao peito
Grito e silencio
Vontade e verdade.

Sempre que posso
Volto la
Pra ve-lo?
Nao sei
Senti-lo talvez
E a cada retorno
O contorno do corpo
Tornozelos a mostra
Teu nome outra vez.

Tuesday, April 25, 2006

Pra onde vao meus pulmoes?!



O incrivel efeito do sol numa cidade como Paris.

Porque o mal tempo é cliente frequente e o mal-humor vem sempre acompanha-lo na bagagem.
E quando o tempo muda nao tem como acreditar que pessoas carrancudas possam sorrir.
Nao.
Sorrir seria exagero.
Apenas sao um pouco menos desagradaveis ao prestar uma informaçao ou nos atender num balcao de banco ou padaria.

Claro que ainda evito os garçons.
Quanto + burgues o restaurante + esnobe eles sao.
E quanto + nojento é o tratamento, menor é a gorgeta.
Isso quando dou gorgeta.
Mas como restaurante é um luxo que praticamente nao me dou, melhor deixar eles de lado.

E o sol de Paris muda tudo.
Quem ve ele brilhando la fora pode até pensar que da pra ser feliz por aqui.
E os turistas deslumbrados pelas ruas.
Mas todos unanimes ao dizer que Paris é melhor sem parisiense.
E eu que tenho que aguentar ainda + essa!

Porque se for pra virar parisiense, amigos, socorro!
Me avisem logo se me virem de celular numa mao e cigarro na outra.
Que baixem logo essa tal lei anti-tabaco nos cafés.
Quem sabe assim voltarei a frequenta-los.
Cansei de comer fumaça.

Se nao bastassem cigarros e poluiçao,
ainda consegui me intoxicar no fim de semana com os produtos de limpeza.
Agua francesa é cheia de calcario e em consequencia, meu chuveiro também.
E dos meus cabelos entao nem se fala.

E pra limpar azuleijo branco de calcario, nada melhor que um anti-cal.
Poluindo a agua, poluindo os rios, poluindo o solo.
Polui meus pulmoes.
Passei o domingo na cama com a cabeça virada do avesso.
Essas drogas podem matar!
Quase vitima do anti-cal.

Pelo menos hoje tem solzinho la fora, né.

Thursday, April 20, 2006

+ Sardinhas!!!



Nao gostaria de ter de voltar a esse assunto.
Espero, sinceramente, que seja pela ultima vez.

As sardinhas das gatas acabaram.
E agora?
Que jeito senao voltar ao mercado.

Era terça-feira.
Como sempre, precisei sair cedo pra evitar as vovis.
O dia estava ensolarado mas frio.
Meus olhos lacrimejantes como sempre.
Como sempre.
Nao quero que isto vire um habito, apesar de ja estar se tornando.

Procurei pela banca do peixeiro.
Nao estava la.
Tinha outra no mesmo lugar, vendendo outras coisas.
Caminhei um pouco + pra pedir informaçoes.
A indicaçao foi outra banca de peixe + adiante.

- Tem sardinha?
-Nao tem.

Vou até uma segunda e depois uma terceira banca.
Nada de encontrar peixe pras meninas.

Lembrei de uma peixaria que descobri na sexta-feira santa.
Do outro lado de onde eu estava.
E la vou eu caminhando...

Fechada.
Talvez em férias prolongadas de Pascoa.

Volto pra casa desanimada e sou obrigada a dar raçao molhada pra elas.
Nao reclamam apesar de nao ser o prato preferido.
Pelo menos hoje elas foram educadas e nao miaram de madrugada nos meus ouvidos.
Bom, as vezes, acordar sem reclamaçoes nas minhas pobres orelhas.

Hoje tomei coragem.
Nao queria mas fui até a peixaria do supermercado.
Encontrei la sardinhas menores.
Nao tao bonitas mas encontrei.

Disse ao peixeiro que elas nao pareciam frescas.
Eu, tao entendida que sou, li que os olhos devem estar brilhantes e as escamas nao podem estar descolando.

Os olhos, brilhantes, do peixeiro, acompanharam seu corpo até o outro lado do balcao.

Crime dos crimes.
Ele pega uma sardinha, arranca a cabeça, esmigalha o corpo até a espinha aparecer.
So pra me explicar que o bicho tava fresco.

Horror!
Meu estado naquele momento foi lastimavel.
Meu dilema:
o que aconteceria com a pobre sardinha destroçada nas maos daquele quase-assassino?

Nao tive coragem.

Pedi apenas um quilo, e em numero par.
Uma pra cada gata.
Uma por dia.

Meu estomago estava embrulhado.
Sorte foi meu chiclete de canela na boca.
Eu poderia ter sujado o piso do supermercado.
E o senhor da limpeza, que estava por perto, nao teria gostado de limpar novamente aquele canto maldito.

Os caranguejos também estavam la.
Os mexilhoes e outros pobres peixinhos.

O peixeiro vai de novo pra tras do balcao e me passa um pacote com as vitimas dentro.
Antes que eu va, sugere que eu coloque o embrulho numa sacola plastica.
Estou em choque e nao consigo separar uma sacolhinha das d+.
Um bom senhor que passa, me auxilia.
Agradeço.
Nisso o peixeiro ja tinha saido + uma vez de tras do balcao pra me ajudar.

Se aproxima e coloca o embrulho na sacola.

Me olha nos olhos, sorri e diz:

- Pra voce nao sair daqui pensando que o peixeiro é mal educado!

Engulo a seco, sorriso amarelo.

Boa tarde.

Era so o que me faltava, levar cantada do peixeiro.
E ainda chegar em casa e encontrar um numero impar de sardinhas!

* Pra quem interessar possa: ele tinha um belo par de olhos azuis. Jovem.
Mas convenhamos: um quase-assassino de sardinhas!

Sunday, April 16, 2006

Susto



Acordo com a nitida impressao de ainda estar la.
Era um buraco daqueles, onde coloca-se o carro por cima.
O mecanico entra dentro e observa o carro por baixo.

Entrei la e de repente, garrafas e vidros coloridos sao jogados em cima de mim.
Susto!

Saio de la com os pés machucados.
As pernas cortadas.
A adrenalina la em cima.

Tenho panos enrolados nos tornozelos.
Sensaçao tao estranha essa.

Vejo teu carro la fora.
Um bilhete pra mim.
Pego meu celular e te ligo.
Te vejo um pouco + atras.

Voce se aproxima
e eu sorriso.
Quanta coisa pra dizer e nem ao menos consigo respirar.

Estava te esperando, digo.
Susto grande esse dos vidros.

Quero te falar, quero te tocar.
Sorriso.

Nem sei bem se voce me ouviu.

Ainda que nao, so te ver ja valeu pelo susto.

Thursday, April 13, 2006

Reminiscências de Pascoa




Atualmente, a Páscoa tem passado em branco na minha vida.
Assim como os Natais, Reveilons, aniversários e datas especiais.

Sou do tipo que acredita que não se deve esperar as datas festivas pra se oferecer um presente.
Que graça saber que em determinado dia, você vai ganhar um presente, ou que pelo menos uma pessoa vai te ligar, mandar um cartão ou email?
Prefiro a surpresa, o inesperado.
Gosto de oferecer uma lembrança ao acaso.

Este texto é uma homenagem singela a todos os coelhos.
Essas pobres criaturinhas que tanto sofrem nesta época do ano.
Como o que encontrei esta semana no supermercado.

Uma menina pega em flagrante delito por sua mãe, no exato momento em que arrancava o papel alumínio e devorava o coelhinho de chocolate ao leite.
A gritaria foi grande lá dentro.
Resolvi sair de perto pra evitar assistir cenas tão fortes.

Nos últimos anos, Páscoa tem sido sinônimo de acne na minha vida.
O problema esta, literalmente, na cara.

Desde a adolescência é assim.

Mas lembro naquela época, em que criança, preparava o meu ninho, cheia de expectativa.
Decorava-o todo e deixava no meio da sala de visita a minha obra de arte em exposição.
E ao lado do ninho, meus 2 coelhos de cerâmica, o kitsch do kitsch, de guarda.
Eles recebiam de vez em quando a graça de um ovinho de chocolate ou ainda de amendoim.
Confesso que aos 5 anos eu já era uma dependente.
Os de chocolate eram os meus preferidos.

Uns fumam, outros bebem e tem aqueles ainda que usam drogas.
Meu vicio, o chocolate.
Uma coisa que até hoje não consegui me livrar.
Sou comedora de cacau compulsiva, assumo.
Não nego, mas também não me orgulho.

O domingo de Páscoa chegava.
E com ele a minha euforia ao ver o ninho cheio.
A decoração de papel celofane parecia brilhar.
Os olhinhos da menina não paravam de piscar.
E eu passava a semana, sem desmontar a cesta, só tirando pelo cantinho um ovinho ou um bombom.
O momento critico era na hora de pegar os coelhinhos e come-los.
Quem disse que eu era capaz?!

Sou protetora dos animais
E acho que nasci assim.

Já viram chocolate velho, que começa a esbranquiçar?

Pois meus coelhinhos de chocolate na infância, todos morrem...

Mas foi de velhice.

Tuesday, April 11, 2006

Eu Comigo



Entao, ta, né.

O doutor vem me dizer que minha pressao ta baixa.
Sempre foi.
Acontece.
Ja ouvi dizer que é melhor que presssao alta.
Nao sou panela de pressao mas sou bolha de sabao.
Assim cheinha e de repente explodindo.
Mil gotinhas espelhadas se espalhando por ai...

Fitoterapia eu digo.
Ele diz ginseng.
Eu natureba.
Doutor budista- zen.

E as capsulas amarelhinhas ja descem tranquilas pela garganta.
De manha.
Um grande copo d'agua.
+ ao meio-dia.

E pensando que tudo se resolve.
Descubro uma super maquina que vira a casa de cabeça pra baixo.
Empurra armarios cheios de livros.
Arrasta movéis.
Arrasa o quarteirao e cobre as paredes de buracos.
Mulher-maravilha, uns dizem.
Baixou a faxineira, la vem o outro.

Que nada.
Eu comigo aqui.
O ginseng fazendo efeito.
Efeito furacao.

Acordo as 3h30 da madrugada.
A sala sem cortinas e a luz da lua entrando.
Sombra no corredor.
Sou eu me arrstando até a cozinha.
Agua com gas.
Passos pesados e empurro 2 gatos que insistem em roubar meu lugar na cama.

Roncos e sei que nao sao meus.
Ronronados a parte e a noite nao passa.
O despertador toca e nao preciso acordar.
Ja estava la.

Bom, doutor tem razao.
Pressao baixa, sim.
Mas quero meu sono de volta.
Prefiro ficar comigo do que com ela.

Maldita insonia!

Friday, April 07, 2006

Asia Dreams



Faz meses que pergunto pra toda colonia vietnamita de Paris se alguém sabe de um cabelereiro asiatico ( e se possivel made in VietNam) que more por aqui.

A esposa do meu médico, Ue, diz que corta numa francesa, bem baratinho, ali mesmo perto do consultorio.

A Lan, que de volta a Saigon, nunca me indicou nenhum tao bom quanto o dela, que por acaso foi quem cortou o meu, pela ultima vez, no passado mes de junho.

O Tony, tenho la minhas duvidas onde possa cortar o que ainda resta de cabelo, visto que é praticamente careca.

A Vy, uma francesa ja assumida, deve frequenter provalemtnte aquelas franquias de saloes que dao desconto pra estudante.

Bem, entao perco quase um ano, e varios cabelos, tentando achar um cabelereiro que possa resolver minha vida.
Parece frescura?
Vou explicar porque nao é.

Eu era daquelas que frequentva o salao de testes da L'Oreal.
Profissionais (franceses) cortavam meu cabelo de graça, e ainda faziam escova.
Em troca da mordomia, eu emprestava minhas madeixas para estudo de shampoos e cremes e essas coisas todas que a mulherada vive usando na cabeça.
O caso é que eles faziam um estudo de cabelo das brasileiras.
Um grande mercado pra eles é o Brasil.
Sera que é porque lavamos + seguido o cabelo e tomamos banho todos os dias?...
Bem, isso é particular d+ pra se falar.
Nao vou queimar ninguém so porque carrega baguete embaixo do braço e nao lava a mao antes de comer.

Voltando aos testes da L'Oreal, quero explicar que eles pararam de me chamar pelo simples fato de eu nao ter um cabelo tipico de brasileira:
meu cabelo é castanho e liso.
Na visao francesa, uma tipica brasileira deve, no minimo, ser mulata e ter cabelo crespo.
Varias vezes eles tentaram me convencer a fazer um teste com um novo produto pra alisar cabelos.
E isso que o meu é tao liso que as vezes escapa da presilha!
Coisinhas daqui, meu povo.

Decidi que nao corto cabelo em salao frances.
Nao tenho 35 euros pra gastar so pra cortar as pontinhas quebradas.
Como esse ano a coisa apertou eu fui obrigada a abrir meu cofrinho e retirar dele 30 euros.
Com a grande vantagem: encontrei uma cabelereira vietnamita!

Como? Onde?
O bom e velho anuario, agora on line, simplificando a vida da gente.

Entao ligo pro 1° nome vietnamita que encontro na lista.
Uma voz simpatica atende do outro lado
e estranha a minha pergunta:
-Voce é asiatica?
A resposta:
-Sou e voce? (dei uma brecha pra que ela me perguntasse a mesma coisa).
A pior pergunta que te fazem aqui, quando voce é estrangeiro é essa.
A pergunta em si nao é tao grave, o que se conta é a entonaçao.

Voltando ao contato telefonico.
A moça é simpatica e marco hora pra sexta.
No caso, hoje.

E atravesso a cidade inteira, em pleno bairro asiatico, pra encontrar a minha futura cabelereira asiatica.

A rua é longa e de longe consigo identificar o salao.
Coisas surreais de Paris, uma senhora com o avental do salao, o cabelo cheio de tintura espalhada de todos os lados e o celular na mao.
Onde?
Em plena calçada!
Com esta indicaçao, achei facinho o caminho.
E quando entro pro meu Rdv das 14h, dou de cara com VARIAS outras senhoras, com muita tinta no cabelo, esperando a vez pra tirar excessos e fazer escova.
Droga! Hoje é sexta e as vovis se embelezam pro findi!
Com todo direito, diga-se de passagem.

Espero uma meia hora até receber atençao e ter meu cabelo lavado.

A menina que é responsavel pela lavagem se chama Lucy.
Foi com ela que marquei hora pelo telefone.
Lucy sorri e me pergunta: - é voce a brasileira?

Sim, sou eu.

-Pensei que voce tivesse o cabelo crespo!
(no comments!)

A moça que vai cortar é outra.
Uma asiatica, vietnamita, loira, com mechas.

Espero a minha vez e vejo uma vovi toda faceira saindo de la com os cabelos tingidos.
Ela fez luzes e na mesma hora lembrei da malvada dos 101 dalmatas:
o cabelo dela parecia o casaco de pele de dalmatas do filme.
Reflexos que pareciam as pintinhas dos cachorrinhos.

Lucy me da uma revista chinesa e diz pra eu escolher o corte.
Chinesinhas com cabelo castanho.
Bom, so me falta os olhinhos puxados!

Escolhi o cabelo que + parece com o que foi o meu no Vietnam.

O Salao lotado e na salinha do fundo vejo embalagens de hamburgers e milks do McDonalds.
A Loirinha me diz:
- Hoje é dia cheio. Nem almoçamos ainda.

A tesoura e a navalha me picotam as pontas.
Vejo uma pilha de cabelos amontoados no canto do armario onde estao nossos casacos.
Menos de 10 minutois e ja estou pronta.

Voltei a ser gente!

So me falta agora recomeçar a comer com os palitinhos!

Wednesday, April 05, 2006

Eu Sou Feliz, E Voce?



Essa aconteceu hoje de manha, na volta da minha aula de yoga.

Além da estaçao da opera ter aquele cheirinho caracteristico que mistura croissants e paes do chez Paul ao cheiro meio adocicado do proprio metro,
Ainda vem uma leva de echarpes a 5 euros e malas e bolsas made in China.
Ai, misturando tudo, adquiri-se o que seria chamado de
"odor da estaçao Opera".

Eu conheço esse cheio ha anos.
Desde os tempos de detaxe das Galeries Lafayette.
E continuei a sentir depois com as idas as quartas de manha ao curso de Monsieur Vallade.

Mas a estaçao ainda conta com participaçoes variadas dos musicos que se revezam nos corredores.
Cada curva pode trazer uma surpresa.

Enquanto desço as escadas e pego um atalho pelo escadaria que me leva direto a linha 8, direçao Balard, um sax me acompanha no ritmo de Blue Moon.
Paro em frente ao distribuidor de balas e salgadinhos, exatamente onde sei que dentro de alguns minutos a antepenultima porta do ultimo vagao de metro se abrira aos meus pés.

E' de la que vejo, nao sem supresa ou emoçao,
um grupos de crianças especiais que dançam, ao seu modo, ao som de Frank Sinatra:
"Heaven...I'm in Heaven...".
E as notas musicais do sax parecem penetrar aqueles pequenos corpos um tanto descoordenados mas cheios da + pura luz.
As crianças dançam e batem palmas.
Os pequenos se divertem e eu me emociono.

O metro chega, a euforia continua.
Todos entramos naquele ultimo vagao.

E eu te pergunto, nesta hora exata:

Voce é feliz?

Porque eu sou.

Sunday, April 02, 2006

Saindo do Ar



E tudo parecia tao normal ontem....
E tudo parecia feito como um dia qualquer em que o trabalho me tomaria 6h e me daria + umas moedinhas em caixa.
Algumas boas moedinhas que salvariam a minha viagem.

Entao faço 45 minutos de metro.
Felix Faure até Maison Alfort - Stade.
E chego as 9.35.
E o Rdv era as 9.45.
Espero com o vento frio no rosto.
Os olhos chorando lagrimas geladas.
E o livro na bolsa.
Esperando por + um capitulo de perguntas e respostas.

Jacqueline esta la, dentro do twingo cinza e com teto solar.
Eu também estou la, do outro lado da avenida, esperando por ela.
Mas os olhares nao se encontram e se passam 5 minutos até que as fichas caiam.
As minhas e as dela.

E o filho de Jacqueline esta nas Antilhas, de volta a vida de pescador e se recuperando de uma crise depressiva.
E eu estou dentro do carro me preparando pra passar as proxiamas horas de um sabado de primavera, com pessoas que revejo faz anos e que nem ao menos sei os nomes.

E chego na porta do atelier.
E um dos rostos conhecidos sorri com uma cigarrilha fedorenta nos labios.
E a sala esta cheia, so me esperando.
E as pessoas se movimenta num ballet de tintas, terrabentina e pincéis.
E eu faço minhas oraçoes e me preparo.
Alongo meu corpo e minhas meias.
Meias finas, meias pretas, meias e furinhos de fio puxado.

Alongo meu corpo e meu cerebro.
Preparo os pensamentos pras 6 horas que me esperam.
Pego meu relogio e sigo em frente.
Amo meu pais e me visto com a bandeira.
Havainas e meias pretas....

A surpresa que me espera.
Nao sao 3 apenas 1.
1 x 6 x 45.
Entao faço força pro desanimo nao entrar em cena.
Pego um banquinho e uns tecidos velhos.
Sento-me confortavelmente, na medida do possivel, e deixo o tempo passar.

Num primeiro instante, tudo vai bem.
Num segundo instante tudo começar a escurecer.
Num terceiro instante caio num buraco negro.
Fora do ar.
Fora da terra.
Estou sonhando deitada em minha cama ou estou numa sala dividindo espaço com outras 12 pessoas?

Nao sei onde estou, quem sou, o que vou fazer.

E o calvario segue até as 17h.

E a moça loira de tranças amarradas na nuca, vem falar comigo.
Ela tem um crucifixo dourado em volta do pescoço.
Ela tem uma palavra amiga em dose dupla:

- Vai la fora respirar ar fresco.

Livros e oculos na mao.
Um vento gelado.
As palavras do livros voam junto.
Os sons dos carros em movimento.
O calvario e a voz de dentro repetindo 3 vezes:
-Chame o Antonio! Chame o Antonio! Chame o Antonio...

Tento resistir e rezo.
Onde foi parar minha cabeça?
Olho no espelho a imagem embaçada.
Fora do ar por um tempo.
Mas o tempo é o que + tenho.
So nao tenho agora quando + preciso dele.

Entao pego o telefone.
Me fecho na cabine de tapete de listinha, 2 poltronas e cortina branca.

- Alo?

- Oi Antonio...