
Tarde quente num mes de agosto.
Paris em férias.
Melhor época do ano pra curtir de verdade essa cidade.
E por que nao um passeio ao ar-livre?
E por que nao um museu de arte funebre?
O cemitério do Pere LaChaise é muito + vivo e movimentado do que certas ruas de Paris.
Entao, minha amiga me telefona varias vezes nesta tarde quente, tentando me convencer a acompanha-la.
Vencida a preguiça, marcamos um encontro às 15h na entrada do cemitério, em frente ao metro.
Com um pequeno atraso, ela chega afobada.
Celular numa mao e carrinho com seu bebe na outra.
Tao distraida, acho que lhe tiraram pra turista.
Nao so lhe tiraram pra turista como lhe tiraram a carteira, com cartoes de crédito e documentos, da bolsa.
E enquanto ela liga pro banco, naquela burocracia sem fim, aproveito pra conversar com seu bebe que de tao tranquilo nem notou o que se passa ao redor.
Tudo em ordem e entramos, com carrinho de bebe e tudo, em pleno Pere Lachaise.
Sorte que o bebe nao pode falar e reclamar das chacoalhadas do carrinho em atrito com o calçamento do cemitério.
E entre tumulos, esculturas, arvores, trocas de fraldas e mamadeiras, nem sentimos o tempo passar.
Até que um funcionario de moto passa buzinando e nos manda embora.
Ja passa das 18h e é hora de fechar.
Pensa que morto do Pere Lachaise nao merece descanso, nao?
Somos obrigadas a pegar a saida + longa.
Tudo bem, pra quem caminhou e empurrou carrinho durante quase 3 horas sem sentir o tempo passar, isso nao é nada.
Mas é nesta hora que a aventura começa.
Entre o muro exterior do cemitério e a calçada, existem plantas, arbustos e um cercadinho de proteçao.
E se nao bastasse ver dentro do cercado um "pobre" mendigo fazendo pipi, caminhamos + um pouco e encontramos um par de gatinhos amarelos e tigrados.
Dois pares de olhinhos azuis e miados esganiçados.
Mas onde esta a mae deles?
Nao esta.
Nao podemos deixa-los.
Afinal, minha moral de militante pela causa animal nao poderia ser arranhada.
Nao poderiam ficar sozinhos assim.
E se pularem a cerca e atravessarem a rua movimentada?!
Minha amiga pega o mesmo celular que ligou pra bloquear os cartoes.
Agora ela liga pra prefeitura e tenta achar um refugio pros bichinhos.
Claro que às 18h15 ninguém + responde ao telefone.
Que fazer entao?
Começamos a chama-los:
pssii, pssiii, vient petits chats, pssiii....Miadinhos finos, olhinhos arregalados e muito medo.
A essas alturas as pessoas que passam pela calçada ja começam a parar pra saber o que as 2 loucas com um bebe no carrinho estao fazendo.
Para uma moça e la começam os palpites.
Nao podemos deixa-los assim.
Minhas preces sao ouvidas quando um casal de adolescentes passa.
Ela loirinha de cabelo comprido, com carinha e olhos de gato, ainda por cima.
Ele com boné e manta no pescoço, em pleno verao!
Uma luz de esperança se acende.
Vou ficar com eles, diz a menina.
Proponho ao rapaz que va ao florista ao lado do cemitério e peça uma caixa de papelao.
Enquanto isso, a louca aqui, de vestido até o joelho, decide pular a cerquinha, que é da altura da minha cintura, e enfrenta os espinhos dos arbustos.
O publico se diverte.
E la estou eu, toda espetada, caçando 2 gatinhos orfaos!
O 1° foi + facil de salvar.
Pelo eriçado, garrinhas fincadas nas minhas maos, coraçaozinho aos saltos.
Falta agora salvar o outro.
E a muito custo, convenço o rapaz de boné a pular o cercado pra salva-lo.
15 minutos se passam e os 2 gatinhos agora estao juntos.
A caixa de papelao nao tem tampa.
Proponho que ele tire tudo da mochila, coloque suas coisas na caixa e deixe a mochila pros gatinhos.
Com certeza estarao melhor la dentro.
Missao cumprida!
A menina pede meu telefone e diz que vai me mandar noticias dos gatinhos.
Pergunto o seu nome:
Julienne(le petit ange des chats!)