Wednesday, March 14, 2007

Bis



E como uma pessoa muito privilegiada que sou, modéstia a parte, tive o privilegio, mesmo a curto prazo, de conhecer duas bisavós e dois bisavôs.

Sem contar uma tataravo!


Então achei + do que necessário dedicar um post a eles.

Todos agora já no plano espiritual.


Convivência estreita, é verdade, mas muito importante.


Minha Bisa paterna, era uma figurinha impar.

Sempre de cabelinho penteado e colarzinho no pescoço.

Um Biju, já diria meu bisavô de origem uruguaia.


Ele, que foi dono de barbearia e funerária, tinha um charme irresistível.

O que deixava minha Bisa pra lá de ciumenta.

Historias do Bisavô Labrea, lembro de algumas.

Como o carro da funerária que pegou fogo, se não me engano, com caixão dentro e tudo.

E a gravata breguissima que ele usava?

E no verso desta um desenho de mulher pelada!

Bem coisa dele isso!

Mas o melhor era o que a Bisa Iria fazia com ele!

Como o sucesso dele era garantido com o publico feminino, a Bisa não teve escolha: enquanto ele dormia, pegou uma tesoura e picotou todinho o cabelo dele!


Na manha seguinte:


- Mulher! Olha só o meu cabelo! Que aconteceu!?


- Foi “os rato”, velho! Devem ter comido “teus cabelo” enquanto tu dormias!


E sabe lá Deus se ele acreditou nisso.

Mas no fundo, com o Vo Labrea, todo cuidado da Bisa era pouco.


Fazia um tempo, quase nos seus 90 anos, quando a Bisa pediu a minha avo (sua filha) que lhe desse pra provar um cigarro de maconha.

Já viúva e morando sozinha, ela ouviu falar que os vizinhos fumavam, então também queria experimentar.


Outra coisa que ela adorava ela ver revista de mulher pelada.
Vai entender!


Desencarnou ao 99 anos.
Morava sozinha desde a partida do Bisavô.

Já pelo lado materno, tive a Vo Neli e o Vo Felipe.
De origem alemã, segundo minha avo materna, Vo Neli conversava em alemão com a minha mãe ainda bebe.
Enquanto a Vo falava em inglês.
No’ na cabecinha da criança: minha mãe entendia tudo mas não pronunciava uma palavra além do português.

Do bisavô Felipe, poucas lembranças além da sua cadelinha Sisi.
Um pequinês de dentinhos pra fora, super mal humorada e que atacava quem se aproximasse.
Pequinês já foi moda mas será que se existisse pitbull naquela época não teria sido essa a opção dele?
Morando no 2° andar, o Bisavô arrumou uma corda bem longa.
Abria a porta do apartamento enquanto a Sisi descia amarrada pelas escadas e passeava na frente do prédio.
Ele vazia todo o controle lá de cima da sacada.

Vo Neli, criativa como só ela, fazia mil trabalhos artesanais.
Ainda lembro de vasos com conchinhas coladas e também latinhas de conserva com macarrão colado e colorido!
O kitsch passou por lá e lá ficou.

Lembro de um tarde em que eu jogava bolinha de gude no chão da sala.
Vo’ Neli achou aquilo interessante e me propôs novas bolinhas na próxima visita.
Qual não foi minha surpresa quando abro um saquinho de crochê vermelho e me deparo com as tais bolinhas!
Vo’ artista:
Deve ter passado a semana comendo pêssego e com os caroços pintados de vermelho fez a surpresa pra bisneta: eu.

Aventuras passadas mas não esquecidas.

Privilegiados aqueles que ainda guardam tais lembranças.

Friday, March 02, 2007

Particularmente Nada




Entao era segunda-feira.


Ela nao sabia ainda qual o programa da tarde.


Talvez fosse ao supermercado, quem sabe comprasse farinha pra preparar um bolo.


Sem planos, era assim que tudo funcionava em sua vida.


Dali pra frente tudo seria diferente.


Ao contrario do que se esperava, de complexo, tornaria-se + simples.





Essa é a vida que ela pediu a Deus.


Nao seria uma vida de facilidades materiais, como havia sido nos ultimos anos.


Também nao seria uma vida regada a arte e ao belo.


Mas seria uma vida + proxima do verde e dos animais.


O céu seria + azul e o ar bem menos poluido.


As pessoas sorririam +


e o vento tocaria docemente seu rosto.





Sim, hoje ela sorri.


E quantas lagrimas foram necessarias até chegar a este sorriso?


Incontaveis.





O que mudou além das distancias e das linguas ao seu redor?


Muito e ao mesmo tempo nada.


Costuma-se dizer que os problemas seguem junto na mudança.


Verdade.


Mas quem nao os tem?


Com ela nao seria diferente.





Agora ela segue.


Caminha pelas ruas incertas.


Segue sem linha reta.


Segue sempre.





Segue feliz.