Meu Amigo Americano

Foi numa visita planejada.
Mas ao mesmo tempo quase inesperada que meu amigo americano parte de San Francisco, Califórnia, rumo a Petrópolis, RJ.
Quando por telefone, eu disse a ele que minha conexão internet era discada, lenta e impossível de ver imagens, ele não pareceu surpreso mas acredito que ao dizer que eu morava no meio das montanhas deve ter o feito pensar na vida no campo.
Quem sabe ele pensou:
Onde estou indo me meter?!
Tudo bem, o moço de rabo de cavalo loiro, de olhos azuis, não teve medo.
Tomou fôlego e o ônibus no Rio, rumo à rodoviária do Bingen, em Petrópolis.
Não acredito que a subida agradável e fresca pela serra tenha preocupado o amigo.
Um pouco de frescor após o calorão do Rio só pode fazer bem.
Um dia nublado esperava por ele.
Meu inglês “imbromation” também.
Pra quem já nem sabe + o que falar em português ou francês, imagine ainda num Inglês pra lá de enferrujado.
- Hi Chris! Nice to meet you!
E pra ter um pouco de emoção no meio da roça, como alguns diriam, nada melhor do que uma visita às fazendas, pousadas e quedas d’água da região petropolitana.
Mas outros também diriam que não seria muito boa idéia mostrar a culinária + do que local.
Para isso, nada como um famoso boteco em Araras e um tradicional PF (Prato Feito).
Pra incrementar a culinária e aproveitando a sexta-feira Santa, o famoso bacalhau com batatas, menos brasileiro que português, substitui o tradicional contrafilé.
Que segundo comentários na ultima visita ao “restaurante” assemelhava-se ligeiramente a sola de sapato.
O passeio num dia nublado mas amistoso agradou ao amigo.
Especialmente a visita à cachoeira.
Fim de tarde fresco e pegamos o caminho de volta pra casa.
E também um inesperado engarrafamento, com direito a carro de policia com pisca-pisca aceso.
O que poderia ter tumultuado tanto a principal rua de Araras?
Temendo mostrar ao amigo estrangeiro a já tão banalizada violência do Rio, quase pensei em dar meia volta.
Mas o alivio veio com a vista dos guardas romanos acompanhados dos prisioneiros.
Logo atrás um antigo conhecido de todos: Jesus e sua cruz pesadíssima.
Pra não atrapalhar o trajeto, estacionamos em frente ao mercadinho e de dentro do carro acompanhamos de camarote a via sacra.
Privilégio a parte, Jesus, e o megafone narrando à cena, param bem na nossa frente.
O peso da cruz é grande e Jesus cai.
Curiosamente logo abaixo de uma placa com os dizeres “vende-se esterco”.
Surrealismo total que muito agradou meu amigo que com minha câmera em punho acompanhou o cortejo até a igrejinha.
Preferi esperar no carro mas ainda pude ver 2 enforcados, um pouco sem o brilho de Jesus, pendurados ao lado do mercadinho.
Emoções e surpresas dessa pacata noite em plena região serrana.
Um pouco depois desta passagem, passamos em casa pra uma rápida checagem de e-mails.
Ele bem que gostaria de usar microfone e webcam mas precisou contentar-se com e-mail mesmo.
Mark, diretamente de San Francisco, ficou sabendo das aventuras e o chefe de Chris liberou + uns dias de Brasil.
Depois de pipocas torradinhas, uma visita às nuvens.
Uma pizzaria que em dia sem neblina proporciona uma vista maravilhosa do que acredito serem as luzes da cidade de Duque de Caxias.
Estrangeiro no Brasil sempre causa curiosidade e parece que todos têm vontade de treinar o que foi aprendido no banco das escolas de línguas e nos filmes americanos.
Com a chance de uma vista privilegiadas sentamos a mesa na sacada da pizzaria.
Modelo de educação ou falta de, o garçom sem ao menos pedir licença, quase pula no colo do amigo tentando levantar o toldo transparente da varanda.
Aproveito pra dizer ao Chris que o garçom talvez não conhecesse as palavrinhas mágicas: com licença, por favor e obrigada, que minha avo tanto nos fez repetir.
Por sorte o garçom não percebeu que era dele que estávamos falando mas percebeu a chance de também treinar seu inglês.
Chegou sorridente até nossa mesa com um inglês na ponta da língua.
E mesmo com meus pedidos em português continuou insistindo na língua estrangeira e na quase forçada consumação de uma garrafa de 1 ½ litro de cerveja holandesa.
Falta de fineza a parte, e com muita dificuldade, fizemos o pedido.
Tamanha a excitação do servente que a água com gás e limão veio sem gás e com gelo e o pedido da pizza quase foi feito na hora de ir embora.
E se não fosse suficiente reclamar em inglês que a vida em Petrópolis era muito chata, em plena empolgação (o garçom) já estava respondendo em italiano!
E quem merece!?
Sabe lá Deus o que o amigo americano achou de tudo isso.
Depois de um jantar um tanto movimentado, nada melhor do que uma boa noite de sono em nosso pequeno apartamento.
A companhia não poderia ser melhor: 4 gatinhas peludas que se revezavam pra ver que finalmente passaria a noite aninhada em cima do colchão e das cobertas do amigo.
Um pouco surpreso pelo assédio, o amigo decide dormir de cabeça coberta .
Mas não esperava que a pequena gatinha Luiza se interessasse tanto pela cabeleira loira que se movia sob as cobertas.
Que aventura dormir aqui em casa!
Noite movimentada com direito a gatas kickboxers em duelo de gladiadoras, o dia amanhece.
Mas o amigo trocou o passeio matinal pelo centro histórico de Petrópolis pelo sono repousante.
E como meio-dia se aproximava e o almoço de aniversario de uma amiga também, o jeito foi sairmos de casa direto pra festinha.
Tudo novidade pra ele e uma imersão total na cultura brasileira e petropolitana.
Duas surpresas logo na chegada da festa: um quase clube da Luluzinha e a mãe da aniversariante de cabelos em pé, literalmente.
Minutos antes da nossa chega, o forno quase explodiu a casa.
O prejuízo: cabelo e pelos dos braços queimados, cílios colando uns nos outros.
A vida nas montanhas também pode conter aventuras.
Acho que essa viagem será inesquecível.
Chris foi a sensação da festa e mesmo com dicionário na mão não teve dificuldades em provar todas as gostosuras: incluído bolo de chocolate e cenoura em formato de coelho e uma vela em forma de flor que cantava desafinada.
Fez foto da íris, tocou guitarra no computador, escutou musica caipira e canto ‘ I lost my Heart in San Francisco’.
Muitas risadas e a tarde voou.
O vôo de Chris já deve ter partido a essa hora mas tenho certeza que um pedacinho dele hoje já é brasileiro.
O que será que ele levou pra Califórnia do Brasil além do pão de meu e do chá de mate com canela?


